20 janv. 2007

Alte na roda do tempo

Isabel Raposo, natural de Lisboa, é arquitecta pela ESBAL (1976) e urbanista pelo Institut d'Urbanisme de Paris (1986). Trabalhou em Maputo, na Direcção Nacional de Habitação/Instituto de Planeamento Físico. Realizou diversas pesquisas sobre as tipologias sócio-espaciais e a transformação do habitat rural, em Portugal e em Moçambique. Co-publicou, em 1994, Maisons de rêve au Portugal, recentemente editado em português (Edições Salamandra) e prepara uma publicação sobre Manica (Moçambique). Tem participado, desde 1975, em diferentes acções de reabilitação urbana em Lisboa (SAAL), Lamego, Castelo Bom e Alte.

Alte na roda do tempo é um ensaio monográfico sobre uma freguesia do interior algarvio, que se estende da serra ao barrocal. O tema central, a salvaguarda do património construído antigo da aldeia-sede, é aqui abordado numa perspectiva de desenvolvimento local, assente numa diversificação integrada da actividade económica. A história, subjacente a toda a pesquisa, permitiu identificar uma tipologia habitacional significativa da organização social.
As aceleradas transformações sociais e económicas, em curso, determinam alterações importantes nos tipos de casa; reabilitar as construções antigas supõe, antes de mais, uma mudança das atitudes e das práticas. Fazer de Alte, um centro cultural do interior, surge como uma ideia forte capaz de congregar esforços conducentes à revalorização do núcleo antigo e à revitalização do lugar.

Isabel Raposo, in Alte na roda do tempo, Março 1995

19 janv. 2007

"Dizem os entendidos..."


"Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, as-zinaik, "rua estreita", o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância.
Ignoro em que altura se terá introduzido na região o cultivo extensivo da oliveira, mas não duvido, porque assim o afirmava a tradição pela boca dos velhos, de que por cima dos mais antigos daqueles olivais já teriam passado, pelo menos, dois ou três séculos. Não passarão outros. Hectares e hectares de terra plantados de oliveiras foram impiedosamente rasoirados há alguns anos, cortaram-se centenas de milhares de árvores, extirparam-se do solo profundo, ou ali se deixaram a apodrecer, as velhas raízes que, durante gerações e gerações, haviam dado luz às candeias e sabor ao caldo. Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Europeia pagou um prémio aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos. Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui. Já sabemos que o milho é um cereal de primeira necessidade, para muita gente ainda mais que o azeite, e eu próprio, nos meus tempos de rapaz, nos verdes anos da primeira adolescência, andei pelos milharais de então, depois de terminada a apanha pelos trabalhadores, com uma sacola de pano pendurada ao pescoço, a rabiscar as maçarocas que tivessem passado em claro. Confesso, no entanto, que experimento agora algo assim como uma satisfação maliciosa, uma desforra que não procurei nem quis, mas que veio ao meu encontro, quando ouço dizer à gente da aldeia que foi um erro, um disparate dos maiores, terem-se arrancado os velhos olivais. Também inutilmente se chorará o azeite derramado. Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras, mas daquelas que, por muitos anos que vivam, serão sempre pequenas. Crescem mais depressa e as azeitonas colhem-se mais facilmente. O que não sei é onde se irão meter os lagartos."

José Saramago, in As Pequenas memórias, Editorial Caminho, SA, Lisboa - 2006

17 janv. 2007

Sarko élu candidat officiel de l'UMP


Il était le seul candidat en lice et a été élu candidat officiel de l'UMP pour les prochaines élections présidentielles en France, avec 98,2% des voix: seul Kim Jung-Il en Corée du Nord fait mieux...

14 janv. 2007

O exílio é...

"O exílio é a terra em que se sonha com a pátria utópica por não ser aquela em que se vive e por não ser aquela outra tal e qual."

José Medeiros Ferreira

10 janv. 2007

On solde!


Tout est à vendre au paradis ultra-libéral! Énergie, santé, éducation, culture (en plus de ce qu'on appelait autrefois "les biens de consommation"). Mais que pouvait-on espérer de l'AGCS?
Aujourd'hui, l'État français veut vendre l'image du Louvre pour 20 ans à Abou Dhabi (ainsi qu'un certain nombre d'oeuvres d'art, dont des oeuvres majeures) pour 400 millions(?) d'euros.
C'est le journal Le Monde (et avant lui Libé) qui dévoile ce méfait contre la culture. Et le Ministre lui, est aux abonnés absents... Élections présidentielles obligent, il a certainement peur de dire des conneries, et que cela porte préjudice à son poulain (Sarko)...

Faits divers


La pré-campagne électorale en France, est féroce! Ils se dévorent entre eux...

7 janv. 2007

Les enfants de Don Quichotte

La vie dans la capitale d'un des pays les plus riches du monde!
Capitalisme, où nous mènera l'avidité de tes Maîtres?

Manifestation contre la fermeture du Consulat du Portugal à Orléans




Plus d'un millier de citoyens portugais ont manifesté ce samedi 6 janvier 2007 à Orléans (France) contre la fermeture du Consulat du Portugal. Après nos compatriotes au Portugal, nous portugais de l'étranger, nous sentons aussi abandonnés par ce gouvernement issu du Parti Socialiste, qui avait tant promis avant son arrivée au pouvoir, et qui une fois en place, sacrifie le bien-être de sa population au nom des restrictions budgétaires.

Les uns après les autres, les services essentiels qui font la raison d'être d'un État, sont fermés sans états d'âme par Monsieur Sócrates: au Portugal, maternités, centres de soins, écoles. A l'étranger, dans divers pays, les Consulats. Jusqu'où iront-ils?
Lors de mon séjour en Algarve, j'ai entendu dire que le SAP de Faro allait fermer ses portes courant janvier 2007!

Paulo Dentinho a couvert le reportage pour la RTP et RTPI, et celui-ci a été diffusé samedi soir.

6 janv. 2007

La honte pour les démocraties

"Feliz Natal, Senhor Primeiro-Ministro"

J'ai dérobé ce message sur un blog portugais, sur le Net... Que l'auteur me pardonne, mais je le cite, bien sûr! C'est que cela correspond à 100% à ce que je pense après être revenu du Portugal en cette fin de décembre 2006, et même avant, après les premiers agissements de Sócrates le Blairiste.

feliz natal, senhor primeiro-ministro

*Feliz natal, senhor primeiro-ministro
És a estrela orgulhosa do nosso presépio nacional
Que nos tem guiado até ao desespero financeiro
Não estás só nesse mago ministério
Fábrica de favores e oportunidades em série
Enquanto o povo pastoreia em centros comerciais
Mercados aldrabões e lojas orientais
Histéricos e explorados
A maldizer a sorte e as promessas à boca da tua urna eleitoral
Eis agora como os pobres se aquecem e dormem
À volta e dentro da mais grandiosa árvore millennium
A sonharem com a perna de peru
Que hás-de beijar na noite da grande ceia
Somos altos na miséria e rasteiros na grandeza
Nas tuas medidas padrão que só servem
Para papel decorativo e simulação de prendas
Nunca sentiste os dentes da inflamada impostura
Que é abrir uma carteira moribunda em frente dos filhos
Inconformados pela sobrenatural explicação política
Com cérebros recheados de sonhos e quinquilharias
Não imaginas o que é ser cuspido por uma fábrica
Sentir o último apito a devorar o tempo que te resta
Experimenta entrar na Casa Portuguesa
Com a mesma humildade insaciável
Com que sufocas nos mercados municipais
Disfarçado de pai-natal fora de época
A amamentar o projecto governamental
Com a inocência dos despedidos e reformados
Não te iludas com aqueles que engordam os grandes
Centros do desperdício e que ilustram o falso postal
Do crescimento e da publicidade cintilante
Aventura-te pelos cordões de ruas onde se passa de lado
Entre casas onde o tormento é lixo que se amontoa
E as crianças são fungos tristes e sofrem de pesadelos
Mais tarde punidos pela justiça enfeitiçada pelos grandes casos
Corrupções ligadas pelo mesmo elo da corrente
Onde Portugal se transformou no cárcere de todos os actos perdoados
E a impunidade é o selo branco que marca o compadrio familiar
Dos que nunca entraram num instituto de emprego
Mercado social de trabalho e pontapé no cu
Feliz Natal, senhor primeiro-ministro
Que dois mil e sete seja o ano da revolução.*

Publicado por fernando esteves pinto